Preservação da função erétil e continência na prostatectomia robótica

Preservação da função erétil e continência na prostatectomia robótica

Entre as perguntas que mais escuto no consultório, quando o assunto é cirurgia de próstata, duas se repetem quase sempre: “vou ficar impotente?” e “vou perder o controle da urina?”. São preocupações legítimas, e merecem uma resposta honesta, sem promessas fáceis.

A prostatectomia robótica foi desenvolvida justamente para reduzir esses riscos, mas é importante entender o que a técnica realmente permite e o que depende de cada paciente.

Costumo abordar essas duas questões já na consulta pré-operatória, antes mesmo da cirurgia ser agendada. Entender com antecedência o que esperar reduz a ansiedade do paciente e ajuda a planejar, desde cedo, os cuidados que favorecem uma recuperação mais tranquila.

Como a técnica robótica favorece a preservação

Durante a prostatectomia robótica, a visão ampliada em três dimensões e a precisão dos instrumentos permitem identificar com mais clareza os feixes neurovasculares responsáveis pela ereção, que ficam bem próximos à próstata.

Quando a anatomia e o estágio do tumor permitem, procuramos preservar essas estruturas durante a remoção da glândula. Essa abordagem tende a favorecer a recuperação da função sexual, embora não seja garantia de resultado igual para todos os pacientes.

O que influencia a preservação da função erétil

A recuperação da ereção depois da cirurgia costuma ser progressiva, e não imediata. Em muitos casos, a melhora começa a partir do terceiro mês, com recuperação que pode se estender entre 12 e 18 meses.

Alguns fatores pesam bastante nesse processo: a idade do paciente, a qualidade da função erétil antes da cirurgia, a presença de diabetes ou problemas cardiovasculares, e a possibilidade técnica de preservar os nervos conforme o tamanho e a agressividade do tumor.

É importante que o paciente saiba, desde o início, que a prostatectomia interrompe a ejaculação, mesmo quando a ereção é preservada. O paciente passa a ter orgasmo sem emissão de sêmen, o que costuma ser esclarecido já na consulta pré-operatória.

Também é importante ter paciência com o processo. A ansiedade em relação ao desempenho sexual pode, por si só, dificultar a recuperação, criando um ciclo de preocupação que atrapalha mais do que ajuda. Conversar abertamente sobre essas dificuldades, inclusive com o parceiro ou parceira, costuma facilitar bastante essa fase.

Reabilitação peniana: por que começar cedo

Um dos pontos que discuto com os pacientes antes da cirurgia é a chamada reabilitação peniana, um conjunto de cuidados iniciado ainda nos primeiros meses após o procedimento, com o objetivo de favorecer a recuperação da função erétil.

Essa reabilitação pode incluir o uso de medicamentos orais que auxiliam o fluxo sanguíneo local, sempre sob orientação médica, e dispositivos de vácuo, que ajudam a manter a oxigenação dos tecidos enquanto a função nervosa se restabelece aos poucos.

Começar esses cuidados cedo, ainda que a ereção espontânea não esteja presente nos primeiros meses, tende a favorecer melhores resultados a longo prazo. Cada protocolo é individualizado, considerando a idade do paciente, a preservação nervosa alcançada na cirurgia e outras condições de saúde associadas.

Continência urinária: o que esperar

A perda de urina nos primeiros meses após a cirurgia é comum e, na grande maioria dos casos, transitória. O acompanhamento com exercícios de fortalecimento da musculatura pélvica ajuda bastante nesse período.

A retomada do controle urinário costuma evoluir de forma gradual entre 6 e 12 meses, sempre variando conforme as condições individuais do paciente.

Sempre que possível, recomendo iniciar os exercícios de fortalecimento pélvico ainda antes da cirurgia. Pacientes que já chegam ao procedimento com a musculatura do assoalho pélvico mais fortalecida tendem a recuperar o controle urinário num prazo mais curto, embora o tempo exato continue variando de pessoa para pessoa.

Quando buscar apoio especializado

Se a incontinência persistir além de 12 meses, ou se a dificuldade de ereção continuar mesmo depois de tentativas de reabilitação, vale buscar acompanhamento com um fisioterapeuta especializado em assoalho pélvico ou com um especialista em saúde sexual masculina. Esse suporte adicional, somado ao acompanhamento urológico regular, amplia as chances de uma recuperação mais completa.

Não veja essa necessidade como um sinal de que algo deu errado na cirurgia. Cada organismo responde num ritmo próprio, e buscar apoio complementar faz parte do cuidado contínuo com a sua saúde, não uma exceção ao tratamento esperado.

Conversar antes de decidir

Cada caso é um caso, e por isso a conversa franca antes da cirurgia é tão importante quanto a técnica em si. Explico com detalhes o que é possível prever para o seu quadro, o que depende de fatores fora do nosso controle e como vamos acompanhar essa recuperação juntos, consulta após consulta.

Não existe fórmula única, e por isso desconfio de respostas genéricas para perguntas tão pessoais. O acompanhamento próximo, com espaço para tirar dúvidas a cada retorno, é o que realmente faz diferença na forma como cada paciente atravessa essa fase da recuperação.

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